Uma ode aos como eu

Nada me lembra mais a paixão livreira e a pieguice, sim – apaixonados como eu são piegas – do que o filme “You’ve Got Mail”, claro que eu me sinto Meg Ryan. Acreditar que apesar de todos os percalços aquilo pode dar certo, que não importa se amanhã o cliente não lembrará seu nome mas somente do livro que você indicou e o deixou acordado a noite toda apenas para saber o final.

O importante é o que você transmite para quem lê, durante quase 20 anos essa foi minha rotina. Além de limpar seção,  guardar livros, fazer pedidos e atender clientes.

Ao que está no final de todo um processo glamouroso editorial, pouco sobrará de glamour. Sua família? Não, ela nunca entenderá. Será difícil explicar aos parentes que a filha vende livros perto de todos que são concursados ou trabalhando em bancos calçando seus sapatos de salto ou terno e gravata.

É algo solitário, um amor incondicional e não correspondido. Com certeza Philip Roth nunca saberá do meu amor por ele, nem tampouco Vila-Matas. Na era do espetáculo, eu me apaixono pelas letras de Raduan Nassar e Augustina Bessa-Luís, não quero saber detalhes de suas vidas mas sim o que escrevem. Alguns clientes compartilhavam de minhas paixões platônicas, outros nem tanto mas ao mesmo tempo aprendia muito no dia a dia e ficava feliz com a vitória de conseguir vender Anais Nin ou “A amadora” da Ana Ferreira em vez de qualquer hit a lá “50 tons de cinza”.

Dia 14 de março é o dia do livreiro e esse post é algo mais emocional como mensagem de parabéns aos amigos de verdade, porque cada um que aguenta o dia a dia com baixos salários, o descaso da maioria das pessoas na cadeia do livro e ainda assim não trocariam isso por nada!

Uma referência imperdível sobre livreiros – Black books – série inglesa sobre o dia a dia de uma livraria, durou pouco mas vale muito a pena.

“Entre os mais humildes comércios do mundo está o do livreiro. Embora sua mercadoria seja á base da civilização, pois que é nela que se fixa a experiência humana, o livro não interessa ao nosso estômago nem a nossa vaidade.” Monteiro Lobato

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