Cravos de Julia Wähmann

“Yo no sé como amar a un elefante”, diz o verso que trago sempre na bolsa. Ao menos não em teoria. Na prática é só se deixar levar por uma dança, por poesia, ou por você. E o fantasma passa ser essa impossibilidade de fazermos juntos.” pág. 129

O livro de Julia Wähmann “Cravos” tem algo da peça “Cravos” de Pina Bausch, coreógrafa e bailarina alemã. Criada em 1983, surgiu a partir da experiência de Bausch com a ditadura do Chile no início dos anos 80. A peça tem 8.000 flores espalhadas pelo palco e com quatro cães pastores alemães a abservar. No outro lado, bailarinos da Tanztheater Wuppertal fazem a coreografia criada a partir de suas memórias afetivas. Bausch define “Cravos” como uma metáfora sobre a busca do amor.

Tendo a peça como referência, “Cravos“, o livro, é feito de uma prosa poética peculiar, que te leva numa viagem pelos caminhos tortuosos da saudade. A escritora Julia Wähmann fez aulas de dança por quase dez anos e quando assistiu pela primeira vez ao espetáculo “Ten Chi”, do Tanztheater Wuppertal – a companhia da coreógrafa alemã Pina Bausch, falecida em 2009 -, daí surgiu a ideia para seu romance Cravos.

Os capítulos são curtos. Como se fossem atos ou filmes em polaroid. É um livro de silêncios e linguagens não verbais como a autora explica nesta entrevista.

Um romance metalinguístico para ser lido sem pressa, daqueles que te colocam junto com a narradora em busca do escasso tempo que tem com a pessoa amada, a doação de tempo e amor, como na arte. Observar esse movimento de persistência da narradora nessa relação, que nós leitores sabemos que provavelmente não durará, é como se a fagulha de sentimentos estivesse ali e pronta para ser experimentada, porque nada é eterno. Para ser lido sem pressa ou necessidade de compreensão instantânea mas ser apreciado como uma peça ou um álbum de seu artista preferido.

“Num intervalo de quatro dias morrem o Michael Jackson e Pina Bausch e o meu fôlego, além de meus dedos excessivamente enrugados em silêncios aquáticos, tediosos e sem aplauso algum. A piscina não mudou de tamanho, mas a borda oposta parece cada vez mais longe.” pág. 63
“- É sempre virose, maresia ou mau contato.
* Ou saudade.”

Tsugumi

Sem dúvida, Tsugumi era uma garota desagradável. Deixei minha tranquila cidade natal – conhecida pela pesca e pelo turismo – para cursar uma universidade em Tóquio. A vida na capital tem sido muito divertida.
Eu me chamo Maria Shirakawa. Em homenagem à Santa Virgem. (p. 11)

A resenha ou tentativa de escrever algo sobre o livro já começa com um alerta: se você espera uma leitura cheia de altos e baixos, revelações impactantes e acha que o símbolo da literatura japonesa é Murakami, talvez Banana Yoshimoto não seja o tipo de autora que você goste. Apesar disso, algumas pessoas que gostam do autor acima citado também gostaram do primeiro livro de Banana Yoshimoto – “Kitchen”.
A narradora de “Tsugumi” é Maria, prima de Tsugumi – a protagonista. E como a autora confessa tanto no posfácio quanto no epílogo do livro, Tsugumi é um alter-ego, e o carinho pela península de Izu é lembrança de quando passava as férias com os pais na região. O luto e a memória afetiva são assuntos recorrentes na literatura da autora, talvez por esses motivos o enfoque seja na adolescência e nas perdas que a vida nos traz. “Tsugumi” pode ser considerado um romance de formação.
Tsugumi é uma garota mimada, caçula de uma família que administra uma pousada na península de Izu e tem uma doença crônica que parece ser parte de sua personalidade. Ao mesmo tempo que insolente é apaixonante.
Dona de uma beleza estonteante, Tsugumi não mede esforços para ser o centro das atenções e não permite que a irmã Yoko e a prima Maria tenham protagonismo em situações corriqueiras da família. E apesar de parecer rude, esse comportamento sincericida mais parece algo como carência excessiva e a certeza de que, diferente de Maria e Yoko, ela não tem opção de deixar a península sozinha e ter uma vida dita como “normal” já que tem uma doença grave.

A vida é uma encenação, pensei. A palavra “fantasia” também possui uma conotação semelhante, mas, para mim, o termo “encenação” é o que melhor expressa o que sinto sobre a vida. Naquela tarde, em meio à multidão, tive esse instante vertiginoso de epifania. Cada um carrega em seu peito uma profusão de coisas boas e ruins, suportando esse fardo durante a vida. E, apesar de termos de suportar todo esse peso sozinhos, ainda procuramos, na medida do possível, ser amáveis com aqueles que nos são caros. (p. 43)

Maria volta para península para dar adeus à família e todas as lembranças, porque a pousada será vendida por causa da abertura de hoteis e crescimento da região. Você percebe que tanto ela quanto o leitor já não tratam Tsugumi como má, apenas amarga ou que não sabe dizer o quanto aquela pessoa que ficou distante fez falta.
A marca registrada de Banana é a simplicidade, sem malabarismos linguísticos. Muitos falam da linguagem triste dos autores orientais, que seriam uma espécie de lamento constante e sem clímax. E eu discordo imensamente disso, não é uma problematização desnecessária, mas sim uma poética do cotidiano, quase um haikai em forma de prosa. A autora consegue comover sem comprometer a história, não cria frases de efeito, nem é piegas.

A autora faz parte de uma nova geração de autores que vivem no Japão, tratam da contemporaneidade e principalmente do sentir-se só mesmo cercada de pessoas.

Nós crescemos vendo inúmeras coisas. E mudamos pouco a pouco. Avançamos conscientes dessas mudanças que se tornam reiteradamente perceptíveis de diversas formas. Mas, se por acaso eu pudesse impedir tais mudanças, manteria aquela noite intocada. Uma noite perfeita, repleta de singela e doce felicidade. (p.. 120)

E uma curiosidade:
Banana Yoshimoto é o pseudônimo de Mahoko Yoshimoto. O apelido foi adotado pela paixão da autora pelas flores de bananeira e pelo simbolismo andrógino da fruta.
O livro foi adaptado para o cinema em 1990 por Jun Ichikawa
https://www.youtube.com/watch?v=OZkjT9oUHEI