A cidade solitária de Olivia Laing

“Cidades podem ser locais solitários e, ao constatar isso, vemos que a solidão não requer necessariamente isolamento físico, mas sim uma escassez de conexão, proximidade, afinidade: uma incapacidade, por um motivo ou outro, de encontrar tanta intimidade quanto se deseja. Infeliz, como diz o dicionário, como resultado de estar sem a companhia dos outros. Dificilmente se imagina, portanto, que isso possa chegar à uma apoteose numa multidão.” Pág. 12

A cidade solitária de Olivia Laing é um ensaio e faz parte da Coleção Anfiteatro da editora Rocco. Misto de ensaio e biografia, é uma investigação de obras de arte que surgem da solidão do artista e de uma busca pessoal sobre a difícil “arte de estar sozinho”.

É uma forma mais contemporânea de expor críticas culturais através de um viés de empatia, a empatia do estar só, por escolha ou não.

Depois de um rompimento e da solidão forçada, Laing começa a costurar através de sua experiência pessoal o que seria o livro A cidade solitária e se compara à mulher do quadro Automat de Edward Hopper. A autora parte de quatro caminhos, ou melhor, artistas, que servem como norte na pesquisa: Edward Hopper, Andy Warhol, David Wojnarowicz e o arquiteto e artista Henry Darger.

A arquitetura de Hopper de aprisionamento e exposição simultânea assume novos significados no contexto de seu tratamento tirânico de sua esposa artista, Jo (talentosa artista que fica obscura e se torna uma secretária do artista, apenas). A visibilidade do trabalho de Hopper chama atenção às incômodas tensões entre voyeurismo e vulnerabilidade dos moradores solitários da cidade.
O ostracismo velado de simpatia excessiva de Warhol e de suas necessidades egocêntricas conflitam com sua necessidade de isolamento. Tudo isso parece ter sido elevado a mais alta potência com o aparecimento de Valerie Solanas, autora do Manifesto Scum, que detectou falhas morais em Andy e por isso, tentou assassiná-lo. Aí o paradigma da solidão coloca em xeque a falta de empatia de ambos. Sem normatizar a terrível atitude, Laing nos aproxima da vida triste de Solanas e sua morte assustadora.

As diferenças entre a solidão masculina e feminina são temas recorrentes no livro. Greta Garbo e seu perseguidor, o paparazzo Ted Leyson, iniciam esse olhar de objetivação,  Wojnarowicz e a objeificação do corpo masculino em suas fotografias.

Nessas passagens, onde as conexões e associações descontraídas, mas profundamente informadas de Laing se levantam para uma espécie de visão privada da comunidade, que seu livro transcende a solidão na cidade de Nova York e sim no mundo contemporâneo.

Em alguns pontos do livro você pode sentir muito “first world problems” porque na nossa realidade raras são as pessoas que podem viajar pelos EUA e Europa para colocar Nova York como a cidade mais solitária do mundo ou causadora de solidão. Ao ler o livro preferi colocar a ótica da garota interiorana do Paraná/Santa Catarina em São Paulo. Foi meu modo de ter mais empatia com a autora e comigo também. Amadurecer talvez seja um ato egoísta de se ver em qualquer lugar, até no outro. E Laing nos transporta para a dor do outro, aquele lugar de fala ou de teletransporte em que você pensa em oferecer um abraço mas visualiza e não responde a mensagem.

Entrevista Olivia Lang no Estadão.