Dora

Não sei se acredito em outras vidas ou se outras vidas é que me perseguem. Se ver em um ser tão pequeno e frágil.
Ela não se lembra de quem ela é mas lembra de alguém que ela ama muito e reclama porque ela sempre se emociona e chora muito, eu também sou assim. Apesar de não ter um futuro nos olhos daquela mulher eu vi algo, eu vi um espelho.

Não faço ideia do seu nome mas preferi chamar de Dora porque gosto e apesar da situação ela
parecia em paz. Ou como a origem desse nome “presente”.

O medo de se ver velho, o envelhecimento te faz olhar bem nos olhos dessa mudança que está inerente a você e que te faz ser quem é. Como a vida sempre te coloca em cheque com seus maiores medos eu acabei indo visitar asilos para uma parente e naquela tarde eu me vi na Dora.

Durante a hora que passei naquele lugar, ela me abraçou algumas vezes como se desse força para aceitar o que preciso fazer e não me sentir culpada por colocar a Dora da minha vida perto dela, foi um aconchego, um afago na dor de pensar que o Alzheimer pode tirar sua memória mas algumas Doras inventam suas próprias aventuras todo dia.

*Texto originalmente feito para o lançamento do Zine Alpacalipse#1 da Editora Alpaca, o Zine impresso existe e você pode comprar direto com a editora ou dar uma olhada no Issuu.

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