Aira, best-seller e literatura

E com isso podemos terminar denunciando outro equívoco frequente, o daqueles que afirmam que o best-seller é um atentado contra cultura. Tudo ao contrário. Lendo-os se aprende história, economia, política, geografia, sempre à escolha e de forma divertida e variada. Lendo-se literatura genuína, no entanto, não se adquire nada além de cultura literária, a mais inofensiva de todas.

Começo com o fim do ensaio de César Aira, Best-seller e Literatura, no livro Pequeno manual de procedimentos porque de certa forma passamos por isso no trabalho diário com a literatura, o boom dos livros YAs pelo mundo e a atual crítica literária. Não sou crítica nem acadêmica, sou o tipo “mau” que trabalho no comercial e marketing de editoras e livrarias, então, sou do tipo que muitas vezes trata o livro como um produto cultural.

Vivemos a era do não conheço e não gosto, e de certa forma se está na lista dos mais vendidos deve ser ruim, mal escrito ou tem a chamada brega dos mais vendidos do New York Times na capa, já soa como presságio para livro ruim.  Sendo que de acordo com a Wikipedia best-seller é – Best-seller, best seller ou, ainda, bestseller (em inglês, “mais vendido”) é um livro que é considerado como extremamente popular entre os que é incluído na lista dos mais vendidos, sendo considerado como “literatura de massa”. Trata-se de uma expressão da língua inglesa para indicar os livros mais vendidos no mercado editorial. E de acordo com Aira é também o que se vende melhor, ou o que consegue ser vendido mais rápido.

Em seu ensaio O que fazer com a literatura?, Aira nos dá uma luz sobre essas indagações literárias – Essa é a acepção em jogo quando dizemos, por exemplo, ao nos referirmos a Isabel Allende ou Harry Potter, “isso não é literatura”. E infalivelmente opinamos “sim, isso é literatura” acerca do que fazemos nós, o que desvaloriza bastante a classificação.

E a partir desse contexto nos perguntamos o quanto isento pode ser uma crítica literária de um livro nacional? Estaríamoso isentos das amizades, trabalho? Eu tenho medo de ler autores amigos e discutir depois, parece que serei uma má amiga se o feedback for negativo ou a pessoa pode me levar a mal. Alguns são mais abertos a ouvir o que tenho a dizer que não é crítica literária e apenas opinião de uma leitora mais cuidadosa como os vloggers.

Percebo o fenômeno dos blogs e canais no youtube fugindo apenas do YA ou da literatura comercial, porque nesse momento temos poucas referências isentas do que pode ser interessante. Vejo e leio as resenhas como se perguntasse a opinião para um livreiro de confiança ou como eu atenderia um cliente na livraria, uma opinião totalmente pessoal e apaixonada.

Apesar de concordar e muito com as opiniões do Aira, percebo que na citacão que abre esse texto ele fala como se a literatura, no Brasil chamada de “alta literatura”, não agregasse nada o que discordo com força, o que ele faz como provocação – uma causação necessária para apimentar a discussão. O que me parece ainda nublado é que não sei se há realmente um conceito para o que é ou não “alta literatura”, porque é um ser e não estar no meu conceito. Porque não há como ficar imune a leitura de Raduan Nassar, Gertrude Stein, Philip Roth ou Clarice Lispector. E essa indiferença é o que aos meus olhos vejo como literatura. Se chamo meus romances policiais de diversão? Sim, possivelmente, mas que ótima diversão para um final de noite!

“E aí intervém a literatura, para recolocar o incompreensível em seu lugar. Isso se dá cada vez em que começamos a entender demais”.

  • O incompreensível – César Aira

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